Arte: Gemini (IA)
"Todo o mundo visível é apenas a objetivação, o espelho da vontade que a acompanha para o seu autoconhecimento" (W I, § 52, p. 308).
Alegoria do espelho schopenhaueriano
gostaria de propor um modo de interpretar a filosofia de Schopenhauer a
partir de um experimento mental, em verdade, uma alegoria. Chamo-a de a
alegoria do espelho schopenhaueriano, ou o espelho de Schopenhauer.
Vamos imaginar que toda a pluralidade do mundo como representação transcorra,
em todas as suas ações, lutas, afirmações e negações da vontade, diante de um grande
espelho extratemporal, esférico e imóvel. Cada produção da natureza e cada
aparência (objetidade da vontade), passando desde as leis da gravidade, eletricidade
e magnetismo até as pedras, cristais, penhascos, quedas d’água, plantas,
flores, troncos, folhas, animais simples e complexos e, enfim, o ser humano em
sua completude moral, sejam suas ações boas ou más, tudo, cada pequena ou
grande coisa, transcorre diante do referido espelho. O aparecimento de um duplo
conhecimento no ser humano, ou seja, o intuitivo e o abstrato,
sendo este último uma potência mais elevada do primeiro, deu a ele um poder
especial: a capacidade de ser o único entre todas as aparências a de fato
perceber e ter a clarividência filosófica (Besonnenheit) de que sua própria vida e
todas as ações de todas as outras vidas transcorrem diante do espelho; humano
este, que consegue, ver não somente o mundo como representação, mas também
o mundo que é refletido no espelho. Assim, no reflexo de cada objeto, luta e afirmação
da vida, enxerga uma essência especial condizente a cada coisa: das pedras, dos
cristais, dos penhascos, dos animais e de todos os atos. Percebe, pois, que
ainda que sejam várias essências, há apenas um espelho que tudo reflete. Não
podendo o homem ser o próprio espelho ou ser os seus reflexos, identifica que antes
de ser um tal que reflete (caráter empírico) é um tal que é refletido,
pois seu reflexo essencial (caráter inteligível) antecede seu corpo. Entende,
pois, a completude de uma existência dupla, donde a verdade está não na
representação empírica das coisas, mas sim no Em si, ou seja, em seu próprio
reflexo. Assim, em sendo um único espelho, compreende que a essência íntima de
todas as coisas possuí um parentesco íntimo e universal, pois cada pedra, cada
animal e cada ser humano é também uma parte do reflexo geral. Um único espelho,
significa, por conseguinte, que há apenas uma única essência, uma única
vontade. Ou seja, as aparências na representação são a mera pluralidade das
formas (Ideias platônicas) exibidas em uma unidade (o espelho). Os reflexos,
portanto, não se submetem ao tempo e nem ao espaço e a harmonia da vontade
existe apenas entre as Ideias, nunca entre os próprios indivíduos, entre esses,
uma espécie sempre crava os dentes na outra, numa infinda hostilidade. O homem
entende, pois, que toda essa circunspecção ocorre de fora para dentro,
pois são os seus olhos empíricos que ocupam o mundo como representação, aqueles
que querem entender a essência das coisas através da visualização do espelho.
Como tal vislumbre nunca é inteiramente possível, mas sempre um tipo de
visualização parcial e limitada, ele então chega ao cume de sua intelecção e
deixa de olhar os reflexos das outras aparências e por conseguinte o conteúdo
de suas essências. Nesse cume intelectivo ele passa a olhar os seus próprios
olhos refletidos no espelho. Então, enxerga a sua própria vontade e parcialmente
sua própria essência. Assombrado, reconhece agora toda a ignorância em que o
restante da natureza se encontra e sente-se mais elevado do que todas as outras
aparências; agora, percebe todas suas ações como supérfluas e ridículas, meras cópias
da essência verdadeira e bela, sendo essas, primordialmente identificada nos reflexos
do espelho. Fixado em seus próprios olhos, quer dominar a si mesmo. Então, passa
a vigiar com atenção seus próprios atos, a calcular suas ações, a filosofar e
agir conforme seu próprio caráter, lugar e consciência, de tal modo, ele contempla
a sabedoria de vida. No entanto, se ele leva esse exercício de circunspecção às
últimas consequências, reconhece a profundidade e a intensidade dos sofrimentos
alheios como se fossem os seus próprios, e então, voluntariamente renuncia tudo
o que transcorre no seu mundo em prol de deleitar-se com o vislumbre das formas
essenciais, ou seja, do deleite sereno da assimilação da própria Verdade, ou
seja, o Em si das formas que vê estampadas nos reflexos daquele espelho
esférico que tudo reflete. Este homem, agindo apenas na finalidade de negar a
vontade, transmuta-se no próprio espelho e agora vê o mundo da
perspectiva dos reflexos, pois sua individualidade foi diluída no uno e no todo,
fechando para si mesmo a possibilidade de que qualquer sofrimento reapareça
e arrastando consigo todo o restante da natureza, pois toda ela aguardava pela
resignação do gênero humano.
Referências
SCHOPENHAUER,
A. Metafísica da natureza – Preleções
berlinenses. Trad. Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2023.
SCHOPENHAUER,
A. O mundo como vontade e como
representação. Tomo I, 2ª edição revisada. Trad. Jair Barboza. São Paulo:
UNESP, 2015.
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